Flexágono

Exposição: Flexágono. Faces da banda desenhada contemporânea portuguesa.
Curadoria: Pedro Moura
Artistas:
Ana Matilde Sousa
André Pereira
Filipe Andrade
Francisco Sousa Lobo
Joana Mosi
Ricardo Baptista
Ricardo Paião Oliveira
Sofia Neto


Local
: Livraria Temporária – Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste
Datas: 14 a 31 de Outubro

Vemos à nossa volta arte advinda de páginas, tiras, trabalhos postados nas redes sociais, que aqui se apresentam sob a forma de pequenas constelações de papel à parede, convidando a prescrutar as suas duas dimensões para delas libertar muitas outras. Um desdobramento potencial e infinito, sem folhear páginas, apenas o olhar deambulando pelas imagens concertadas entre si.

Existem artes que, manipulando o papel, lhe garantem escapar das duas dimensões. O origami, por exemplo, enquanto arte de introduzir vincos no papel em busca de volume. Ou os mecanismos de pop-up, uma arte de, através de incisões, dobras, lamelas, suportes movíveis, procurar o dinamismo cinético do papel. Mas a banda desenhada cumpre-o ora introduzindo o mel da narrativa entre as suas diversas imagens, ora sublinhando a sua discrição pelos intervalos, ora multiplicando as suas articulações, que podem mesmo, no limite, desimaginá-las. A narrativa é um recurso, por vezes voluntariamente volatizada.

A banda desenhada portuguesa tem demonstrado, desde a sua origem, e mesmo que respondendo aos movimentos globais que a têm pautado ao longo de século e meio, uma característica força de artistas individuais, mais do que escolas, estilos comuns ou tendências, vincados nas suas escolhas pessoais, métodos de expressão e capacidade de procura de caminhos próprios. Mais, o estado contemporâneo da “cena” portuguesa é particularmente vivo, variado e dinâmico, mas é ainda preciso ser-se atento para além das prateleiras nas livrarias convencionais.

Nos nossos dias, por razões socialmente claras, e mormente patentes num festival dedicado sobretudo à arte literária como o Fólio, existe uma visão privilegiada da banda desenhada enquanto veiculada pelo formato do livro (o codex, de que o álbum, antes forma clássica e tradicional, passou a ser uma sub-classe). Procurando com nomes tais como “novelas gráficas” ou “romances gráficos” ter roupagens diferentes de respeitabilidade, mais que bem-vindas, essa transformação acaba por contribuir ao mesmo tempo para um apagamento de outras estratégias e existências. Há quase como que uma ideia desse seu formato (implicando noções de tamanho, número de páginas, arranjo gráfico, pertença a um género, sinal do crivo editorial) ser desde logo um garante diferenciador e hierárquico em relação a qualquer outro formato ou modo de apresentação. Mas para compreender o que se passa no nosso país, de uma forma mais lata, é preciso olhar para pequenas edições, fanzines, para sítios na internet, para o Instagram, e a mistura de todas essas esferas, para aumentar o escopo da oferta.

Consequência ou razão dessa mesma mudança, ou ambas a um só tempo, a libertação da banda desenhada de uma certa obrigatoriedade de género(s) literário(s) (por hipótese, o humor ou a aventura) e de veículos editoriais (por exemplo, a revista hebdomadária) levou a uma consequente atomização da área. Não é, de todo, um campo estético ou social homogéneo, mas uma sempre móvel negociação de tensões, intensidades e brilhos, cuja navegação não poderá ser jamais completa, mas que melhor funcionará se se deixar levar pelos seus trânsitos internos. Essa atomização tem aspectos positivos. Actualizam-se na variedade de estilos, tópicos, assuntos, materialidades, meios de produção, distribuição e circulação e, acima de tudo, diversidade de agentes produtores e de leitores. Poderemos referir-nos a aspectos menos felizes, talvez, como uma maior e inevitável dispersão, uma menor distribuição de atenção, um menor consenso…. mas não é isso, também, no fundo, positivo?

A Flexágono mostra, de um universo alargadíssimo e diverso, oito casos de autores que têm, cada qual a seu modo e cada qual num território particular dessa área criativa, explorado a sua individualidade expressiva, autoral e formal.