Uma mesa para conversar de revolução no FOLIO

Como o gueto se tornou no centro do mundo

Ricardo Rodrigues Blog

A revolução cultural do nosso tempo é querermos estar nas ruas onde antes não nos atrevíamos a entrar.

 

Texto e fotografias de Alexandre Sabino, aluno da Universidade Lusófona

 

“Desde o fim da década de 80 para cá, a cultura mais vibrante nas grandes cidades é a que está a ser feita nas periferias.” A frase é do escritor Estevão Azevedo, que a particulariza na cultura brasileira mas depois a generaliza para o resto do mundo. A principal questão é: até que ponto o gueto, que marginalizávamos e queríamos excluir, está a tornar-se no centro da cultura internacional?

A música, a escrita, as novelas, todas elas participaram neste processo de mudança. “Pode dever-se a uma exaustão de vários tipos de música que envolve uma cultura europeia que finalmente, ao esgotar-se, fosse inevitável não chegar a este ponto”, dizia o escritor angolano Ondjaki no FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, numa mesa dedicada ao tema “Da revolta nas colónias à rebeldia nas metrópoles”.

 “Cada vez mais as cidades se interessam pela diversidade e se assumem como uma colcha com diferentes padrões”.

As músicas que antes eram apenas do Brasil, ou provenientes de África, espalharam-se para as grandes metrópoles. Muito por culpa das segundas e terceiras gerações de imigrantes, que se estão a fazer ao trabalho e incorporando nele as suas raízes.

O fenómeno não é exclusivo à lusofonia. A reforma cultural está a acontecer em todos os países que recebem imigrantes. “No meu país tu és bem-vindo ao trazer a tua cultura, a tua língua”, diz Cherie Dimaline, uma escritora canadiana que participou na mesma mesa. “Cada vez mais as cidades se interessam pela diversidade e se assumem como uma colcha com diferentes padrões”.

Exemplos como os Buraka Som Sistema ou Seu Jorge fazem sucesso a nível planetário a partir de bairros sociais, guetos que antes foram esconderijos para as culturas não dominantes. Ondjaki analisa o fenómeno percorrendo o Atlântico: “Angola está a oferecer ao mundo ritmos como a kizomba e o kuduro, do Brasil já não vem só samba, o funk e o rap revolucionário estão a tomar conta do mundo.”

O gueto não está a exportar só música. Também é uma nova centralidade para estilos de vida, formas de escrever e de apresentar ideias. Cherie Dimaline acredita que no Canadá isso é particularmente visível ao nível da escrita. “Até porque o inglês é fácil de manobrar, então vemos os povos que antes estavam em guetos a passar cada vez mais as suas culturas para fora”.

O gueto perdeu a vergonha.

O discurso político, concordam os três escritores, já percebeu este novo potencial dos guetos. “Hoje os governos querem estar cada vez mais próximos dos fenómenos culturais das margens”, diz Cherie. “Isso funciona bastante bem como propaganda”, responde Onjaki. “Os comícios com concertos de música angolana ou de rap brasileiro são um chamariz para as comunidades que estão deslocadas dos centros. Puxar estas pessoas através da cultura delas, torna o processo de campanha muito mais fácil.”

O gueto perdeu a vergonha. Hoje há artistas que a partir do subúrbio partilham experiências, apresentam livros, enchem salas de espetáculos e ditam as tendências. A revolução cultural do nosso tempo é querermos estar nas ruas onde antes não nos atrevíamos a entrar.