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Serão os direitos das mulheres uma concessão masculina?

Ricardo Rodrigues Blog

A igualdade de direitos estabelecida na Revolução dos Cravos nasce da luta das mulheres ou da cedência dos homens?  No dia em que o FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, este ano dedicado às revoltas, debatia o 25 de Abril, perguntámos aos protagonistas da revolução quão sexista ela tinha sido.

 

Texto de Jéssica Ferreira e Marta Marques, alunas da Universidade Lusófona

 

“Umas fadas do lar” É assim que Maria Inácia Rezola, professora de História Contemporânea, encara o papel que a ditadura atribuiu ao género feminino – um ser passivo no espaço público. “Nos anos 60 já se tinham sentido grandes mudanças, mas com o 25 de Abril elas consolidaram-se definitivamente.” Numa revolução feita por homens, ninguém ganhou mais direitos do que as mulheres. Portugal vivia dias sombrios, que para as portuguesas eram ainda mais escuros. A escolarização era ainda mais limitada, a obediência ao homem um facto e só uma pequeníssima minoria podia votar.

É provavelmente por isso que Franco Charais, militar de Abril e um dos redatores do programa do movimento das Forças Armadas, fala numa ironia histórica: foram os homens, neste caso os capitães, a oferecer às mulheres um novo poder. “Fizemos tudo para mudar a perspetiva dominante. Uma das primeiras medidas que adotámos foi a universalidade de voto. Outra foi que as mulheres deixassem de precisar da autorização dos maridos para sair do país.”

“Houve muitas mulheres que lutaram contra a ditadura. Muitas delas estiveram na primeira linha e foram presas.”

Manuel Alegre, poeta e político que se exilou do país durante o Estado Novo, não alinha pelo mesmo discurso. “Houve muitas mulheres que lutaram contra a ditadura. Muitas delas estiveram na primeira linha e foram presas.”, diz. E dá dois exemplos icónicos: Catarina Eufémia, morta pela polícia, grávida, durante um protesto por melhores condições de trabalho, ou Isabel do Carmo, presa várias vezes pela PIDE.

“Em todos os níveis, as mulheres tiveram um papel de primeira água na deposição do Estado Novo. Escritoras e intelectuais, como Sophia de Mello Breyner e Maria Lamas, fizeram a diferença.”, acrescenta Manuel Alegre. Maria Inácia Rezola diz que não podia ser de outra forma: “Os homens não conseguem valorizar a importância do que é ser mulher.”

Franco Charais admite isso, a luta pelos direitos das mulheres não foi necessariamente feita de forma consciente. “Os revolucionários tinham de apagar fogos. E, portanto, nós não estudávamos os problemas, reagíamos. É preciso reagir à igualdade de homens e mulheres? Muito bem, nós reagimos.”

 “Os homens não conseguem valorizar a importância do que é ser mulher.”

E, logo nos primeiros anos, aconteceu o impossível: uma mulher chegou à liderança do governo. “Maria de Lurdes Pintasilgo foi de facto uma mulher importante, a terceira na Europa a desempenhar o cargo de primeira ministra”, diz Franco Charais. “Trouxe uma nova conceção da cidadania e mostrou que uma mulher pode atingir e pode exercer as mais altas funções do Estado”, comenta Manuel Alegre. “Furou o mundo dos homens, o centro da decisão política”, remata Maria Inácia Rezola.

Naqueles dias depois de Abril, as vozes das mulheres começaram finalmente a levantar-se. Passaram 43 anos, e podiam ter passado muitos mais, que todos parecem concordar na mesma coisa: o caminho só agora começou.