Aprender a rebeldia com os livros

José Diogo Fólio

Até domingo, em Óbidos encontros com escritores, lançamentos de livros, concertos e muita atividade nas livrarias. Para falar de revoluções.

“Alguém aqui gosta de ler?” Noemi Jaffe lança a pergunta e fica olhando em volta os braços que se levantam a medo. Meia dúzia de braços no ar. Mais dois ou três hesitantes. “Alguém está lendo algum livro agora?”, quer saber Noemi. Essa pergunta é ainda mais difícil. Risos nervosos. “Estou a ler um livro mas não me lembro do autor.” Há quem refira Os Maias, de Eça de Queiroz, leitura obrigatória na disciplina de Português. Uma rapariga está a ler um livro de Bukowski. “E está gostando?” “Sim, é o meu autor preferido.”
O grupo é composto por cerca de 20 alunos do 10.º e do 11.º ano, vindos de uma escola no Laranjeiro (Almada). Metade é da turma de Turismo, a outra metade do curso de Fotografia. Vieram a Óbidos, acompanhados pelas professoras, de propósito por causa do festival literário Folio, com hora marcada para um workshop com a escritora brasileira Noemi Jaffe com o tema “Literatura, a língua revoltada”. Às três tarde, na Livraria da Adega.
A escritora, que está em Portugal a lançar o seu mais recente livro, O que os cegos estão sonhando?, também é professora e sabe bem como é difícil conquistar os jovens destas idades para a literatura. “Qual a diferença entre a nossa conversa quotidiana e a escrita literária”, pergunta-lhes. Se a conversa tem como objetivo a comunicação e, para isso, tem de seguir determinadas regras, a literatura tem como único objetivo o prazer. “O escritor escreve porque gosta de escrever, o leitor lê porque gosta de ler. Como não tem qualquer utilidade nem qualquer objetivo, o escritor pode escrever sobre o que quiser e como quiser, não tem de seguir quaisquer regras.” Noemi Jaffe fala-lhes de escritores que subvertem as regras como Guimarães Rosa, Mia Couto, José Saramago, Valter Hugo Mãe. Na verdade, conclui, “a literatura é um ato de rebeldia contra a obediência que praticamos todos os dias”. “Revoluções, revoltas e rebeldias” – esse é o tema da terceira edição do Folio. E Noemi Jaffe faz um jogo com os jovens, desafiando-os a escrever dez palavras que têm que ver com liberdade e a depois construir um texto sobre a revolta.

Para José Pinho a rebeldia pode ser tentar transformar uma vila turística numa vila literária. O homem que fundou a livraria Ler Devagar (agora na LxFactory) e que entretanto abriu nove livrarias em Óbidos e ainda assegurou a sobrevivência da Férin (no Chiado) foi também o criador do festival Folio e, apesar de este ano ter sofrido um revés no seu orçamento, não tem intenções de desistir. “Em 2015, a Unesco declarou Óbidos como Cidade Literária e isso dá-nos responsabilidade e impõe-nos objetivos”, diz. Está já a pensar na próxima edição do Folio e na segunda edição do Latitudes, o festival de literatura de viagem, e tem planos para em 2018 pôr de pé mais um festival, agora dedicado à poesia.

 

“Em 2015, a Unesco declarou Óbidos como Cidade Literária e isso dá-nos responsabilidade e impõe-nos objetivos”

“Um jornal chamou-lhe o Astérix dos livros, porque resiste como alma solitária ao avanço dos grandes grupos editoriais. É assim que se vê?”, pergunta-lha a jornalista Maria João Costa, da Rádio Renascença, no programa Obra Aberta, gravado ontem, ao vivo, na Casa da Música, em Óbidos. José Pinho está à vontade com essa imagem de resistente. “O negócio dos livros não é um grande negócio, mas mesmo não sendo rentável pode servir para outras finalidades”, explica. “Para todos nós que nos metemos nisto, os livros são um vício. E os vícios são caros. Isto para mim é um ócio. Enquanto não for um pesadelo…”
Quando sai da gravação do programa, José Pinho passeia por Óbidos, com o seu saco de pano branco ao ombro, confundindo-se com os turistas que bebem ginjinhas em copos de chocolate e compram artesanato de cortiça. É difícil circular na rua principal da vila por entre uma multidão que fala em várias línguas e sotaques. São poucos os que reparam nas placas amarelas do Folio que apontam o caminho para as várias livrarias e outros espaços de atividades. José Pinho passa pela Casa da Criação – onde o escritor Mário Zambujal fala da revolução tecnológica que, “não sendo política, tem efeitos políticos e em todos os aspetos da nossa vida” – e acaba por sentar-se na plateia da Livraria Santiago, instalada numa antiga igreja, para ouvir Hugo Maia, que traduziu As Mil e Uma Noites do árabe para português, explicar como ao procurar o manuscrito mais antigo se percebe que este livro é, afinal, muito diferente da versão adocicada e ocidentalizada que nos tem sido vendida.
“Esta obra não foi produzida pelas elites, pelo contrário, é uma crítica evidente ao açambarcamento da riqueza por essa elite e também uma forma de resistência aos déspotas que oprimem os mais fracos”, diz o tradutor. “Há um espírito de resistência popular em As Mil e Uma Noites.” Ou como disse Noemi Jaffe aos jovens alunos da Margem Sul: “Na literatura não temos de nos adequar às regras nem temer que os outros nos julguem loucos. Toda a arte é uma expressão da liberdade.” E é aí, nos livros ou pelos livros, que, tantas vezes, nascem as revoluções.

Publicação original aqui